Progresso Espiritual

Categoria CCC

Geraldino cumpria rigorosamente todos os preceitos de sua religião.

Uma vez por semana ia à missa, comungava, e nunca se esquecia de qualquer detalhe que pudesse ser-lhe apresentado por São Pedro, capaz de barrar seu ingresso nas mansões celestiais, após a morte.

Achava-se muito inteligente. Talvez fosse apenas sagaz. Aos 52 anos lograra aposentadoria com apenas 23 de serviço e, para matar o tempo, tomava diariamente o ônibus para o centro da cidade a fim de bater papo com amigos, comprar algumas frutas frescas e paquerar alguma garota que lhe desse “bola”.

Ao voltar para casa, pouco antes do ponto onde desembarcava, o coletivo passava frente a uma igreja e Geraldino, como bom católico que era, jamais deixava de persignar-se. Como segurava a sacola das frutas com a mão esquerda, tinha de soltar a direita para fazer o sinal da cruz, e o motorista amigo, advertia:

– Cuidado, seu Geraldino! Numa dessas eu dou um freio e o senhor se machuca.

– Nem que eu morra… Pelo menos vou quites com minhas obrigações religiosas.

Dito e feito. Numa dessas, o ônibus freou bruscamente e Geraldino caiu, batendo a cabeça tão desastradamente, que desencarnou.

Meio tonto, sem saber ao certo o que estava acontecendo, com o passar das horas começou a desconfiar que morrera.     

De fato, lá estava o caixão e o corpo (ah, era ele mesmo) sendo velado. A viúva, devidamente enegrecida pelo luto, só aliviava o ambiente de seus soluços quando desmaiava; o filho mais velho, ativo como sempre, cuidava dos detalhes legais e a filha, sob efeito de comprimidos, dormia pesadamente.

É…a coisa era mesmo séria.

Andou para um lado e outro observando os presentes, e não fosse a preocupação com os próximos passos, bem que daria umas boas gargalhadas por toda aquela hipocrisia, pois era pública e notória a aversão da família por ele, principalmente depois da aposentadoria que lhe dava mais tempo para curtir as gatinhas e as bebedeiras dos fins de semana, que sempre acabavam com algumas coisas quebradas nem que fosse a cara da esposa chorona ou de algum dos filhos.

Alguém acendeu um cigarro. Hum … aquele cheiro de tabaco… que vontade de fumar!!! Mas como, se estava morto? Teve ganas de dar uns bofetes no sujeito. Que falta de respeito, fumar num velório!

As horas transitavam lentas pelos ponteiros do grande relógio da sala e aquele cheiro de morte começava a dar-lhe nos nervos. Por onde andavam as caravanas dos anjos que deveriam escoltá-lo até São Pedro? Talvez estivessem aguardando o último procedimento religioso na Terra, o fecho de ouro, a encomenda do corpo, para que a alma pudesse, livre do peso dos pecados, alçar vôo rumo ao Céu.

Parece que lhe assinalaram os pensamentos ou petições, porque a porta se abriu dando passagem ao sacerdote que vinha cumprir esse piedoso mister. Mas o tempo passava, o dia já começava a clarear e nada do cortejo celestial.

Talvez eles venham me recolher no cemitério – pensava Geraldino roído pela preocupação.

Mas o caixão desceu à cova, coberto de flores e do alívio dos familiares, sem que os anjos dessem o ar da sua presença. O dia virou noite e voltou a ser dia, mas nada acontecia, ou melhor, começavam a acontecer coisas muito estranhas, deixando o recém-morto realmente apavorado: notava-se inchado, crescido, tumefacto e …horror dos horrores, sentia os vermes a lhe roerem a carne. Olhava as mãos e, aqui e ali a pele se abria surgindo a cabeça voraz do tapuru. Olhava de novo e nada via; estava tudo normal. Talvez fosse seu corpo apodrecendo no caixão que lhe transmitia tais e tão horrentes sensações.

Quis fugir do cemitério, sair correndo daquele lugar de alucinantes pavores, mas não conseguiu. Era impossível arredar pé de cima da sepultura, escapar àquele pesadelo cujas tenazes o prendiam ao reino da morte. Teve de suportar minuto a minuto o desfilar dos horrores e, quando finalmente a obra dos vermes estava concluída, chegou alguém com poderes bastantes para retirá-lo dali.

Ah, alívio! até que enfim seria conduzido a São Pedro. Certamente aquele santo guardião dos portões celestes iria reconhecer seus direitos, adquiridos ao longo da vida pela qual sempre transitara obediente aos preceitos da Igreja. Era assim que pensava.

Mas não foi São Pedro quem o recebeu na “sala dos julgamentos”. Pelo menos em nada se parecia com aquele santo, o homem que o olhava com certa piedade, segurando nas mãos uma ficha.

– Geraldino Morais Nogueira – disse o desconhecido em tom solene, continuando:

– Esta instituição analisou detalhadamente seu caso e você vai ser encaminhado para zonas inferiores, onde poderá purgar os erros de sua vida.

– Como? – gritou Geraldino, cheio de revolta e desespero. – Eu sempre cumpri rigorosamente as normas da Igreja e posso mesmo informá-lo de que vim para cá porque preferi morrer a deixar de obedecer a um preceito religioso.

– É verdade – continuou serenamente o homem da pasta . – Mas vejo na sua ficha que você sempre tirou vantagem de todas as situações: na repartição subiu às custas de imagens falsas que criou em torno de si e da reputação alheia, que tantas vezes manchou; no lar, foi um tirano e verdugo; na sociedade, aproveitou-se da ingenuidade de muitas jovens, sem falarmos da inveja que nutriu por algumas pessoas, da frieza que demonstrou quanto ao sofrimento do próximo e das centenas de horas de embriagues e outras coisas semelhantes.

– Mas, os meus direitos… – balbuciou o infeliz.

– Terá tempo bastante para analisar melhor essa questão de direitos e deveres – continuou o representante daquela “estranha justiça”, concluindo:

– Dessa forma, numa futura encarnação, saberá usar melhor esses direitos e a liberdade que a vida lhe der. Por agora, seu caminho é por ali…

A mão do homem apontou-lhe um caminho escuro, viscoso e escorregadio, que descia para o reino das sombras, enquanto força irresistível o arrastava naquela direção. E enquanto seguia no rumo de seu novo destino, pôde ainda ouvir o homem da pasta dizer ao ajudante:

– Arquive na categoria CCC.

– Categoria CCC? – perguntou o auxiliar.

– Sim – respondeu o da pasta, concluindo:

– Essa é a categoria dos que confundem conduta com crença.

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Do livro “Um Forró no Umbral – e outros contos” publicado pela Editora Aliança.

https://www.aliancalivraria.com.br/busca?query=um+forr%C3%B3+no+umbral

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